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Palavras de Areia

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã.

Palavras de Areia

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã.

30.09.19

Porque não me entendes...

in Somos Mais do que Histórias - Desabafos de Amor, Cordel d'Prata


Maresia

De mim arranquei o melhor,
Renascido da lama onde afundei,
Para te dar, partilhar, sentir.
Mas tu não me vês, não me alcanças.
Como perdida no nevoeiro.
Não me escutas, não me entendes.
Como gritos abafados no caos,
Somos decibéis dissonantes.
Universos paralelos,
Que se encontram ao pôr do sol,
Para logo se perderem de si...
De ti. 

Sou o que sou.
Sem filtros, sem máscaras, sem dó.
Digo o que sinto, o que penso, o que vejo.
Sou um rio de águas límpidas,
Que corre pelo leito sem barragens,
Abrando, acelero, desaguo.
Não tenho, nem sei como fingir.
Não disfarço, não ignoro, não enleio.
E tu não vês.
Preferias um lugar comum.
Um laço perfeito, de normalidade,
De guardar para si e sorrir.
De capas e filtros de moralidade.
De normas civilizadas.
Mas eu sou tribal, selvagem.
Ataco por instinto, protejo por instinto e amo genuinamente.
Não quero segredos, nem guardar enredos.
Partilho o bom e o mau de mim.
Darei sempre os meus melhores dias,
Mas espero ser recebida de braços abertos nos meus piores.
Somos alegria e tristeza,
Sol e trovoada,
Silêncio e barulho,
Amor e ódio,
Saúde e doença,
Mulher e Mãe.
Vida e morte!
Não me queiras pela metade.
Ama-me pelo meu todo. 

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28.09.19

O Nosso Primeiro Encontro

15 anos de amor incondicional


Maresia

Meu Francisco,

Hoje, decidi imortalizar o nosso primeiro encontro na palavra escrita. Esta é também uma memória tua, para reviveres e recontares.

Há 15 anos, estava pronta para te receber. Ou melhor, a rebentar para te conhecer. A tua já grandeza e superpoderes começavam ali... Confesso que receava a qualquer momento, ao mínimo toque, rebentar qual balão sob pressão.

Não querias sair do aconchego e o médico, ao fim de dezenas de observações e ponderações, lá decidiu que precisavas de uma ajudinha. E dia 28 de setembro de 2004, lá estava eu. 9 da manhã! Finalmente, pensava... Esperei horas para que o meu corpo desse sinal e já a tarde avançava, quando fomos para a sala de partos. Mas, depois de uma horripilante epidural, 40 semanas depois, quebrei pela primeira vez... Lembro-me da máscara de oxigénio, de dizerem que os teus batimentos cardíacos baixaram, do teu pai desaparecer, de não conseguir falar e de, pela primeira vez na vida, querer dar a vida por alguém, de querer gritar que o que interessava eras tu, só tu!!!

Com 25 anos, recém-estreados, nada nem ninguém me preparara para aquelas horas. Ia ser cesariana... Não esquecerei o voo da cama pelos corredores, o bater das portas de ferro, o não saber o que iria acontecer... Sozinha, com o tempo a roubar os efeitos das anestesias, não foi certamente o momento mais fácil desta vida e tu, que me conheces (tão bem, que me conheces!), imaginas o sofrimento e os impropérios que saíam de mim. Puxavam, esticavam, não passavas... Lá está, ninguém tinha previsto a tua grandeza. E depois do que pareceu uma eternidade, com o relógio daquela parede branca a marcar 17h55, lá arranjaram maneira e arrancaram-te de mim. Ouvi-te e chorei compulsivamente. A pediatra disse que já irias comer caldos de couve e o meu médico, aliviado pelo final feliz, veio ternamente acalmar-me e fazendo-me festas no cabelo segredou-me que fora a maneira de avisares que por parto natural não irias sair. Naquele momento, nas palavras dele e no meu coração já eras um herói. Não te consegui logo tocar, abraçar, encostaram-te ao meu rosto e eu beijei-te loucamente. Tu foste para os colos que te esperavam lá fora. A minha viagem ainda demoraria algumas horas... Queria muito estar contigo, mas para isso tinha que ficar bem... Cerca das dez da noite, agarrei-te para a vida, para não mais te largar. O meu coração soltou-se de mim para ti. Não há palavras que descrevam o sentimento que me inundou. Uma mãe nasceu contigo, naquele dia. E 15 anos depois...És tanto!!! És grande!!! És grandeza!!! Seremos sempre amor nosso, canções nossas, histórias nossas, momentos especiais só nossos...

Parabéns, filho!!!! Amo-te muito!!!!

Mãe

 

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06.09.19

Bom regresso às aulas, rapazes!!!


Maresia

A partir de segunda-feira, começam as idas para a escola e os meus dias passam a ser mais cinzentos sem a vossa balbúrdia e emoção. Continuarei a fazer caretas, mas é de aborrecida, sem vocês não é a mesma coisa!
Sou uma sortuda porque graças ao meu trabalho vos tenho mais perto e, apesar de ralhar e barafustar todos os dias, confesso que não vos queria ver pelas costas.
Somos uma casa cheia! Em todo o lado, somos uma casa cheia...
Mas agora, é tempo de regressarem às escolinhas, de ir para o Secundário 😉. Os amigos, educadores e professores estão à vossa espera para mais um ano letivo. Que seja excelente!
Bom regresso às aulas, rapazes!!!
💙💙💙

Maresia, a mãe

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03.09.19

Contos d'amor

Silêncios


Maresia

A rua estava escura, silenciosa, como se o tempo tivesse parado. Achava-se sozinha, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, as mãos cerradas e os olhos postos no imenso céu estrelado, quando sentiu que alguém se aproximara. Arrepiou-se, hesitou em girar o corpo, envergonhada pelo choro, sem saber como disfarçar.
O vulto avançou e colocou-se a sorrir à sua frente. Mantiveram-se em silêncio, naquilo que pareceu uma eternidade, até que se soltou um olá rouco, se esboçou um sorriso e se respirou fundo.
Existem pequenos momentos na vida que sentimos como mágicos, que se infiltram no nosso ADN, que na memória lhe sentimos o cheiro, este era um deles.
Quando o mundo desabava, quando o vento lhe levara tudo e todos, quando errara com todos, pois só assim fora possível acertar o seu próprio passo, quando amar tanto os outros, fora deixar de amar-se a si própria, aquele anjo de asas negras e sorriso fácil, que já achava perdido, surge na sua frente.
Não se conteve na sua fragilidade e chorou compulsivamente, mas agora, como alguém a quem a vida acaba de ser salva no último instante, e sentiu aquele abraço como um carga eléctrica de amor.
-Posso ajudar-te? - perguntou-lhe de sussuro ao ouvido.
-Por favor! - respondeu-lhe, enquanto lhe depositava um beijo no rosto.
E de mãos dadas, apertadas de emoção, seguiram rua abaixo, ambos sabendo que amanhã o Sol lhes brilharia, certamente, com outra graça.
Nessa noite, numa troca de silêncios e de dedos entrelaçados, entregaram-se num longo abraço e adormeceram aninhados, numa simbiose perfeita. Sabiam que jamais se largariam e aquilo que sempre sentiram no peito, só agora fazia sentido. A vida que lhes fugiu, foi a que os trouxera ali.
Aos primeiros raios de luz, demorou uns segundos a perceber onde estava. Sentiu então, o seu corpo, o seu pulsar, o seu respirar. E nesse momento, nervosa, trémula, apertou-lhe a mão e exclamou um bom dia, sem nunca o encarar. Ele devolveu-lhe o bom dia e esmagou-a num abraço contra si.
Então, aproximando-se do seu pescoço, respirou-a e encheu-a de beijos. E como numa dança, rodaram e lentamente se despiram através de carícias e de dedos devotos a descobertas de caminhos inusitados. E no beijo sôfrego entregaram-se um ao outro, primeiro a alma, depois o corpo.

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