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Palavras de Areia

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã.

Palavras de Areia

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã.

29.11.19

A Imperfeição do Amor, de Joaquim Mestre

Um Romance Imperfeito


Maresia

A Imperfeição do Amor é o segundo romance do autor Joaquim Mestre (1955-2009), que nos presenteou com uma escrita marcada pela originalidade e por uma ação labiríntica, que nos testa e nos encaminha a desfechos inusitados.

Partindo de um mundo onírico, mergulhando numa bruma de presságios e fenómenos, nasce a nossa história e o nosso personagem principal, Quico Regueiro, numa zona portuária impregnada de cheiro a peixe e de estranhezas. E talvez por Santiago de Compostela estar perto, a poucos quilómetros de Mazouco, se justifiquem as devoções e as aberrações, como sinais e mensagens divinas, a não serem ignoradas.
Uma narração acelarada, a várias vozes, com um toque sarcástico, de avanços e recuos, que com este ritmo caraterístico nos leva até estas vidas estranhas, de entranhas escurecidas e torcidas, com a de Frederico del Rio, a assombrosa e desconcertada do padre Ferrando, ou a da febre e de desejos mortais de Outisa. Vidas que se vão cruzando, enleando num emaranhado de coincidências e estranhezas. Um confúcio entre as leis da natureza e as almas penadas.
Mundos imaginários do sobrenatural, de mistério, sinais e mezinhas, de monstros e absurdos, de desgraças humanas.
E claro, o Amor, que surge do nada, sentimento que nascia e já prometia rebentar dentro dos dois, sem explicação e na mais imperfeita condição, consumado no mais tenebroso cenário. Os amores abençoados, desesperados, de súplicas a santos e de elixires de amarrações, os condenados... a fuga do amor que leva à morte, primeiro da alma e depois física.
Vidas consignadas a prisões sem grades, a consolos, a cartas de amor encomendadas. A imperfeição do amor nas vidas condenadas de Manoel de la Formoseda e de Quico.
A minha vida parece que tem à frente um muro alto e branco. Sinto-me esmagado pelo peso que colocaram em cima de mim. Penso em Ilena a toda a hora. Senti que ela poderia ser a minha liberdade.
O sonho de que todos podemos reescrever a nossa história e que nos podemos reerguer e soltar das tais prisões invisíveis em que nos fecham, mas também o pesadelo de estarmos entregues a maus presságios e condenados pelo amor. Histórias de vidas tão imperfeitas como o amor.

E nas páginas do Mestre, encontramos uma bela definição de Amor, mesmo que imperfeito: Bastou olhá-la para sentir que a minha alma entrava dentro dela e não queria sair. Nunca mais saiu. Não sei explicar, mas senti que nunca tinha tido uma certeza como aquela. 


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22.11.19

Embrulho de amor


Maresia

Os amores, gosto deles pendurados ao pescoço.
Gosto dos braços entrelaçados,
dos dedos na nuca,
das cócegas na pele.
Gosto destes embrulhos de pessoas.
Pendura-te em mim...
Eu penduro-me em ti...
Que laço forte, o nosso.
Até se sente cá dentro, no peito.
Aperta bem, para não soltar, mas sem nó.
Que o laço quer-se ajeitado de vez em quando...
E ao desembrulhar há um toque de magia...
Aí os olhos miram-se e brilham.
Sabemos que haveremos de repetir o embrulho.
O do nosso amor.

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21.11.19

Equação de 40.°

Parabéns!


Maresia

Chegaste! Já estava à tua espera nesta paragem dos 40. ⏳
O que se passou até aqui, o que vivemos, aquilo a que sobrevivemos, desde crianças, não mais voltará. Não mais correremos nos corredores da Marquesa, não mais abancaremos nas pulgas, não mais seremos os adolescentes, não mais beberemos aqueles copos, não mais beijaremos aqueles amores, não mais desafiaremos o perigo. Não mais serás o puto da bola, o futebolista do Estoril, o estudante universitário, o novato da função pública, jamais serás aquele que, graças à sua ousadia, redescobri há 12 anos, e parou à minha porta com um pneu furado. Fizeste-me pousar em nós, neste amor improvável. E o que entrou em nós até aqui, o que brotou do nosso amor, já ninguém nos tira.
A nossa cronologia é bem louca e somos o resultado de tudo, tudo, o que vivemos.
Juntos torná-mo-nos adultos. Finalmente! Pois ambos adorámos ser crianças, talvez por isso, hoje, elas façam parte das nossas vidas. Para que o brilho no olhar e o ímpeto na ponta do pé não morram. As três que bombeiam o nosso coração são a nossa vida e aquilo que somos hoje está longe de ser um mundo a dois... é uma loucura a cinco.
Estamos a meio da viagem (sabes que penso muito nisso) e neste dia, em que completas 40 décadas, quero que saibas, que sintas, que quero muito que sejas feliz, imensamente feliz. Todo o amor que tens em ti, tudo aquilo que tens sido e feito por todos, por mim, merece que nas próximas 60, tenhas o melhor do mundo e que esse mundo te dê o melhor de ti.
No teu universo dos números, acerta, por favor, essa equação de 40.° e faz com que o resultado seja um multiplicar de saúde, sorrisos, sucesso e amor.
Parabéns, quarentão sexy! 💛

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18.11.19

Pela mão da minha Mãe

Viagem no tempo à Aldeia


Maresia

Hoje, a minha mãe levou-me pela mão a passear na sua aldeia natal da Trindade, em Beja. Corriam os finais dos anos 50...por aí...
Percorremos as ruas, espreitámos postigos e relembrámos rostos da sua infância.
Na Travessa dos Mestres, visitámos a Avó Helena, que estava a fazer alguidares de massa e a fritar filhoses, já o Avô Helena bracejava de forma ágil no seu ofício e dizia à minha mãe, que de tanto o ver fazer, qualquer dia também ela faria sapatos. Na oficina da frente, cumprimentámos o tio António Januário, dissemos olá à vizinha Maria Inácia e ainda caminhámos junto à cerca para ir espreitar a barbearia do Tó Tiago. Seguimos em frente, e lá ao fundo, à esquerda, espreitámos as eiras e fomos até lá abaixo aos barrancos com as suas amigas.
No largo da Igreja, fomos ao tio Vicente. Vimos o casão da água, entrámos mais adiante, descemos as escadinhas à esquerda, primeiro para telefonar e ver onde era o pequeno escritório e o sítio dos correios e voltámos a descer mais uns degraus para ir à Mercearia comprar tabletes de chocolate para a minha avó Rosa, no Natal, colocar nos sapatos dos filhos, junto ao chupão. Saímos pela porta da frente, da Rua do Calvário. À nossa esquerda, conseguíamos ver o movimento da Fábrica de Moagem e as mulheres, as necessitadas de linhas e fazendas, na conversa à porta da Bia Madeira. 
Fomos ao lavadouro público com as tias lavar a roupa, demos um salto até ao poço da Vinha. As mantas e os cobertores fomos com a avó lavar à Ribeira e aí, aproveitámos e apanhámos
junça, canas e faias com a Maria Augusta e a Maria Lucília para os mastros.
De regresso à Aldeia, pássamos pela Chaminé e vieram a correr até ao portão dois cães enormes. Fugimos ladeira acima!
Fomos direitas à Adega e na Rua Mariano dos Reis passámos pela vizinha Constança, que estava à sua porta, chamámos pela vizinha Góis e parámos no tio Torcato para comprar tremoços a um tostão.
Entrámos na Adega. Havia homens nas mesas, de um lado e de outro. Um enorme quadro do Benfica. Ao fundo, à direita, estavam dezenas de peças de caça penduradas. Atrás, enormes talhas de barro, em cima de uma delas, a televisão. Mais à esquerda, o balcão e o meu avô Jacinto, a enxaguar copos. Lá atrás na cozinha, a avó Rosa, a fritar perdizes. Ao fundo, duas casas, são os quartos da família. Cheira a vinho, a fritos e as vozes roucas de homens entoam pelo espaço.
Saímos para a rua. Do nosso lado esquerdo, paredes meias com a Adega, o quintal da Sociedade. Estavam a colocar um pano enorme para projectar o filme Joselito. Já se ouvia música a tocar na outra rua e mais logo, cada um com a sua cadeira debaixo do braço, estará a postos para a sessão mágica.
Fomos ao fornos no fundo da rua, primeiro encontrámos a tia Maria do Forno e mais à frente, o forno da mãe da Lita (da qual nos falha o nome). Mais tarde, fomos ao forno do José Manuel Arsénio, espreitar a tia Chica Paulino, mas esse era do outro lado da Aldeia, ao fundo da Rua do Calvário  (hoje, Rua 8 de março). E nessa altura, aproveitámos para ir à Escola, ver a Professora D. Augustinha e a Professora Isabel. Estivemos no canteiro a arrancar rapazinhos.
Entretanto, jogámos ao Pisa e à Avioneta, ao Jangros e ao Eixo.
E como no dia seguinte era dia de escola, apanhámos boleia para Beja com o tio Adelino, que deixou a Mariazinha e a Teresinha no Colégio e a nós no tio Zé Romão. A tia Maria Luísa já nos esperava.
E estes foram alguns dos passos desta viagem no tempo que tive a honra de fazer com a jovem Rosa da Adega, aquela que hoje, sortudamente, chamo de Mãe.

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13.11.19

Quando o tempo para

Vale pelo amor


Maresia

O amor tem destas coisas. E sem pensamentos, sem julgamentos, sem amanhã, sem saberem como, beijaram-se, abraçaram-se, amaram-se.

O tempo parou. Os beijos mordidos, o respirar, a loucura do sentir, de dentro para fora. Elevaram-se ao amor, saquearam-se ali mesmo, despidos de tudo e cheios de si mesmos.

Tatearam-se numa descoberta de um mundo que já era deles, num toque vibrante, assolador, de dedos, de pele, de corpos que se copulam para gerarem energias.

Enrolados como plantas, bolinaram ao sabor da paixão, guindastes de prazer, devastando-se, devorando-se, ascendendo-se, perdidamente.

Valera pela vida, pelo amor.

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12.11.19

A infinita capacidade de amar

Perante mim me confesso


Maresia

Vamos fingir que estamos todos felizes, impecáveis nas nossas roupas individuais e familiares, retas, sem vincos de imoralidade.
Preza-te pela honra, rege-te pelos olhos dos outros e verás onde isso te leva...
Quantos não passaram por este mundo presos a grilhões de regras sociais e de pesos de consciência, advindos de séculos de palavra de Deus, escrita por homens pecadores como todos os outros? Quantos não viveram fechados no seu silêncio, em submissão e opressão, debaixo de uma guilhotina de bem ser e bem parecer? Quantos não amaram, não riram, não conheceram o mundo, não se encontraram, porque os colaram ao chão?
No fim, naquele instante em que sentir que para mim terminou, que a lágrima de partir acompanhe o sorriso de quem viveu, amou e foi amada. Quero morrer sabendo que fui corajosa e que corri atrás de mim e da minha felicidade. Naquela hora, que o julgamento seja o do meu peito, da minha alma, da vida que escolhi para mim. E não a que outros, infelizes, tentaram parametrizar e apregoar que seria a de bem. A de bem para quem? Para os seus egos mesquinhos e cobardes, de quem não soube ser feliz, se elevarem e se sentirem mais moralizadores. Na tua condenação tu não me odeias, tu invejas a minha capacidade de saltar os muros, as falésias, os teus penhascos santificados.
Assim, continuarei a gritar a minha alegria, a minha dor, a minha tristeza, o meu bem e o meu mal. E só assim, assumindo cada sentir, cada imperfeição, cada derrota, eu estarei mais perto de mim e dos momentos felizes que fazem esta porra de vida valer a pena.
E todos que levo e passam no meu caminho, sabem, eu sei tão bem que sabem, que amei e me dei o mais verdadeiramente possível. E no que deixo para trás fica amor, não ódio, fica a certeza que o nosso coração, tal como este mundo, são infinitos na capacidade de amar.

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