Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Palavras de Areia ®

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã. Poemas meus e desabafos de amor e de vida.

Palavras de Areia ®

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã. Poemas meus e desabafos de amor e de vida.

27.01.21

A Ilha na Rua dos Pássaros, Uri Orlev

27 de janeiro, Dia internacional em memória das vítimas do Holocausto


Maresia

Neste dia, em que devemos honrar a memória das vítimas do Holocausto, relembro um livro que me marcou... A Ilha na Rua dos Pássaros, de Uri Orlev.
A marcante história de Alex, uma destemida e incrível criança judia, em plena Segunda Guerra Mundial, que sozinha consegue sobreviver, refugiado nos escombros do bairro judaico, aguardando sempre com esperança o regresso do seu pai. E a sua coragem, sofrimento e perseverança são emocionantes. Um retrato emblemático do clima de guerra, horror, medo que viveram milhares de seres humanos, milhares de crianças...e milhares foram aqueles que não conseguiram a sua "ilha"... e o ódio e estupidez humana lhes roubou tudo, a vida.
Alex ficou para sempre na minha lista de heróis...
A escrita faz-nos sonhar, mas também nos traz a História, o conhecimento, a experiência, a aprendizagem.
Este livro, este Dia 27, ensina-nos a humildade perante a vida, a crueldade humana perante o seu igual, o perigo do ódio e da arrogância.

Que esta realidade não mais passe da ficção e das páginas dos livros.

🖤

AddText_01-27-10.23.06.png

 

23.01.21

Liberdade

Miguel Torga


Maresia

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.   

Miguel Torga, in 'Diário XII'

18.01.21

Na dança do vento


Maresia

Sentada no tear da vida,
Teci meu pano, fiado com sorrisos.
De algodão branco de paz.
Debruei-o com fios de ouro,
De sonhos azuis céu.
Bordei meu nome a verde esperança,
Meu coração vermelho sangue.

Lenço de amor, guardado ao peito,
Enxuga minhas lágrimas,
Dançando, esvoaça-as ao vento,
E leva com elas os beijos,
Que guardei em mim,
Perdidos no tempo.

20210118_233527.jpg

 

 

14.01.21

A minha Epopeia

Caminho de Santiago


Maresia

O Caminho de Santiago foi para mim uma experiência inigualável, uma epopeia de vida. E, tal como a de Camões, foi dotada de grandeza, solenidade e heroísmo. E nela cantei os meus 40 anos de vida e os Homens e Mulheres ilustres que a preencheram de afeto e ensinamentos.

A minha Proposição, uma vivência única, um teste psicológico e de superação física, alcançada no momento que vislumbrei a Praza do Obradoiro e percorri aquele tapete de pedras a olhar a monumentalidade da Catedral. Aí, tive a certeza que sim.

A Invocação de inspiração e força dirigia aos meus filhos, às minhas estrelas e a este Deus de luz e poeta que criei só para mim. E passo a passo, eles foram, certamente, depositando a sua bênção de coragem e sentir em mim. E a minha Dedicatória foi também para os meus filhos-deuses, para que estes meus três corações, a viver fora do meu peito, saibam que não devemos desistir de nós, dos nossos sonhos e que a força de ultrapassar obstáculos está no lutar e não na resignação perante o que a vida nos dá. E que só o amor que nasce de dentro de nós, é digno de inundar o outro. Temos que ser a fonte de nós mesmos e não esperar que os outros nos matem a sede.

O meu Plano de Viagem foi uma descoberta maravilhosa de mim mesma, embrenhada no silêncio e na música da Natureza, envolvida por cenários de uma beleza indescritível.

E nesta minha Viagem, mulher e mãe, como as que choravam na Ribeira das Naus, parti com o coração apertado, como os marinheiros de Vasco da Gama, mas com a força e coragem do Povo Português consegui chegar ao meu destino. Nela percorri os trilhos de Santiago, mas também fiz uma viagem interior, revivendo os episódios mais marcantes da minha história de vida, de conquistas e batalhas, vencendo tempestades. Rocha abraçada pelo meu Adamastor dobrei cabos de dificuldades, enfrentei Velhos do Restelo e até me senti serena e apaixonada como Inês de Castro nos “saudosos campos do Mondego”.

A vós, que foram os meus Reis de Melide, agradeço o terem-me acompanhado e por receberem estas minhas partilhas de braços abertos.

20200114_145700.jpg

 

 

12.01.21

Dream (in) a poem


Maresia

Our love… roller coaster.

Hot, breezy, dusty, rainy…

Slavery of your mood.

You hunt my dreams,

You rule my senses.

Chained to your mouth

Tasting like hot mango…

Our kiss, an explosion,

A fusion of flavours, desires.

Profound feeling,

Profound pleasure

Delving into our souls,

Heavily, deeply into our skin.

IMG_20210112_134837_030.jpg

 

 

09.01.21

Medusa de mim


Maresia

Nas ondas dos meus cabelos,
Vivem meus sonhos, clamores.
Nelas perco o pensamento,
Enleio fantasias, quentes desejos,
Escondo tontos sorrisos, trejeitos.
E teço minhas tranças de histórias.

Nas ondas dos meus cabelos,
Repousam meus segredos, anseios.
Delas penteio a tristeza,
Desembaraço os nós da minha dor,
Enfeito-as, fios de cor, fitas de amor.
E enlaço meus poemas, só meus.

6e3ffdf3cac439c13168c4ef55dd8577.jpg

 

07.01.21

Perdida


Maresia

Cai sobre mim um nevoeiro,
Entorpece os sentidos.
Aglutina a alma,
Espicaça o corpo.
Na sombra, desfoco a realidade.
Já não a sinto minha,
Em minhas mãos, no meu toque.

Voei daí para aqui,
Vejo-me de fora, aérea.
Planando sobre os meus dias,
Perdida nas minhas horas.
Não antevejo, não sei.
Perdida num limbo,
Entorpecida pela dor, sem sentido.

Envolta de escuridão, de amor,
Que já nem sinto meu.
Alma una, solitária,
Estendo minhas mãos vazias.
Devolvo abraços de mágoa.
As minhas palavras, espinhos,
Ingratas, de olhar perdido.

57fc63fd8e058badaa752f1494e92d57.jpg

 

05.01.21

O Meu Caminho de Santiago - Há um ano...

As primeiras páginas dos primeiros passos de uma aventura inesquecível.


Maresia

Um dia, descobri o Caminho de Santiago. Espreitei-o, sorri-lhe e guardei-o num cantinho de mim como algo inspirador. Anos mais tarde, redescobri-o ou melhor, ele foi-me espreitando, cutucando, aqui e ali, e um dia, percebi que era este o desafio, o alento, o sonho mais breve que eu queria, que eu precisava desesperadamente de concretizar. Eu, só eu e o Meu Caminho. E assim, respirei fundo, acrescentei uns quilómetros às minhas caminhadas diárias e em poucas semanas estava delineado o meu rumo, o meu mapa. A primeira escolha, sem hesitações, recaiu no Caminho Português da Costa… se algo havia a acrescentar ao meu deslumbramento pela estrada, o trilho, o verde, o bosque, a floresta, seria o mar, o meu mar. O ar puro é inspirador, mas se lhe juntarmos a maresia e a mais bela banda sonora de Neptuno, de ninfas e marinheiros, somos levados por ventos favoráveis.

O ponto de partida, Caminha, eu e o meu coração português a velejar rumo à Galiza, para conquistar os meus sonhos e me deslumbrar com um mundo novo. A Guarda e Mougás, as primeiras conquistas, provas de fogo, ao sabor do vento e das ondas. E assim, perfumada e salgada, alcançaria Nigrán, Vigo e Redondela. Aí, seguindo a Estrela Polar e por veredas, bosques, pontes e estradas romanas, a chegada a Santiago de Compostela e um reencontro marcado comigo mesma. As pernas a pesarem, todo o corpo um queixume, mas o coração a palpitar, os olhos a brilhar de luz e lágrimas e um fim de chorar a sorrir pelo fim, mas também, por um novo recomeço. A pessoa que ali chega não é certamente a mesma que sonhou um dia fazer o Caminho de Santiago. E assim foi.

Dez dias, dez etapas, dez desafios, dez conquistas, dez dias de ouro para rechearem este tesouro, que é a Vida.

(...)

6 de janeiro de 2020

Dia 1 - De Casa a Caminha

Aqui vou eu… carregada com uma mochila imensa e com um peito cheio de sonhos e de uma vontade imensa de ser feliz e de me respirar fundo. Com a procura de, no fim, me encontrar renascida, retemperada de esperança, corajosa e grata pela Vida.

Estação Lisboa-Oriente, 9:40, comboio 721, carruagem 22, lugar 101, dia de Reis, 6 de janeiro de 2020, um ano do futuro, que na verdade me leva primitiva, despojada de quase tudo para junto da Natureza, para fazer o meu Caminho até Santiago de Compostela.

Neste comboio que me leva ao local que escolhi para dar os primeiros passos, choro em silêncio, como que a verter a angústia que deixarei nesta carruagem e que, por certo, não quererei levar comigo. Este ritmo, este correr de paisagens, provam-me a infinitude do mundo, a beleza que se encerra nele, e que, por mais apego que tenhamos ao nosso lar, aos nossos, é no viajar, no explorar, no ver tudo com os nossos próprios olhos e sentir, sentir muito, que nos enriquecemos e somos tanto, no meio de algo tão maior que nós.

Chegada à estação Porto-Campanhã (por momentos, transportada para a memória do Monopólio da minha infância) é hora de transbordo e de encontrar em poucos minutos o meu próximo comboio dos sonhos.

A mochila pesa, mas eu já me sinto mais leve. E aqui vou eu à procura de Caminha e do meu Caminho, mulher e homem das minhas histórias, embrulhada num manto de motivação, coragem e sonhos.

Tenho sede, de água e de passos, começando a ficar inquieta por estar sentada, sem me mexer há horas. Tenho em mim a vontade e o alento de ser tanto, de me embebedar e lambuzar de Mundo.

Da estação de Caminha ao Albergue de Peregrinos são minutos, sinto um nervoso miudinho, encontro a minha primeira vieira e seta a indicarem-me a minha guarida. É agora. É oficial!

O Albergue está vazio. Por esta altura do ano, parece que há poucos destemidos ou loucos como eu. Largo a mochila e vou descobrir Caminha. Aqui acabei por me deslumbrar pelo Jardim à beira-rio e pelo centro histórico.

No jardim, na Avenida de Camões (e quem melhor para me inspirar que ele), esparramei-me na relva a olhar o céu e o gigante pinheiro nórdico. E ao encontro do centro, pela Rua da Corredoura, dou por mim na bonita Praça Conselheiro Silva Torres, com a sua fonte, os seus belos edifícios, a imponente Torre do Relógio e a sua Igreja da Misericórdia. No Café Central, sento-me na esplanada para vislumbrar tudo isto e matar a fome. Só eu estou só, mas mirando os rostos, escutando as vozes, sou a mais encantada naquele momento.

Regresso ao Albergue passando pela Igreja Matriz de Caminha e pelo Conjunto Fortificado de Caminha e aqui, mais uma vez, fico extasiada, observando cada pormenor das pedras, da vista imensa para o rio Minho, ali onde este recebe o rio Coura, para juntos desaguarem no Oceano Atlântico. Anoiteceu, entretanto. Estou gelada e reforço a indumentária para dali a não muito tempo regressar ao encanto noturno da beira-rio e procurar um lugar para beber um chá preto bem quente. Estava ótimo!

Sentada num dos tantos bancos de jardim, relembro o poema Solidão, de Mia Couto. Tão saboroso como o chá quente de há pouco.

A camarata é só para mim… um aglomerado de beliches metálicos… impessoal, silenciosa, vazia, um pouco estranha, confesso. E o sono que tarda. Escrevo, penso, escrevo, penso, escrevo, sonho acordada à procura do sono profundo. Ali, na liberdade dos meus sonhos e das horas vazias, viajo e delicio-me ao encontro de fantasias e delírios da minha alma de mulher poeta e a minha alma transborda de medo risonho.

Ainda agora começou a viagem e aqui cheguei, a Caminha, o meu ponto de partida, e já me sinto mais leve e livre, ainda que perdida. Serei sempre assim só. Completa no meu ser, de mãos dadas com a minha coragem, mas este Caminho escolhi-o solitário. E nesta paz inquietante renovo a paixão pela Vida, este sentimento que quero perdurar em mim.

O início do Caminho_Caminha.jpg

20210105_225841.png