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Palavras de Areia ®

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã. Poemas meus e desabafos de amor e de vida.

Palavras de Areia ®

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã. Poemas meus e desabafos de amor e de vida.

05.01.21

O Meu Caminho de Santiago - Há um ano...

As primeiras páginas dos primeiros passos de uma aventura inesquecível.


Maresia

Um dia, descobri o Caminho de Santiago. Espreitei-o, sorri-lhe e guardei-o num cantinho de mim como algo inspirador. Anos mais tarde, redescobri-o ou melhor, ele foi-me espreitando, cutucando, aqui e ali, e um dia, percebi que era este o desafio, o alento, o sonho mais breve que eu queria, que eu precisava desesperadamente de concretizar. Eu, só eu e o Meu Caminho. E assim, respirei fundo, acrescentei uns quilómetros às minhas caminhadas diárias e em poucas semanas estava delineado o meu rumo, o meu mapa. A primeira escolha, sem hesitações, recaiu no Caminho Português da Costa… se algo havia a acrescentar ao meu deslumbramento pela estrada, o trilho, o verde, o bosque, a floresta, seria o mar, o meu mar. O ar puro é inspirador, mas se lhe juntarmos a maresia e a mais bela banda sonora de Neptuno, de ninfas e marinheiros, somos levados por ventos favoráveis.

O ponto de partida, Caminha, eu e o meu coração português a velejar rumo à Galiza, para conquistar os meus sonhos e me deslumbrar com um mundo novo. A Guarda e Mougás, as primeiras conquistas, provas de fogo, ao sabor do vento e das ondas. E assim, perfumada e salgada, alcançaria Nigrán, Vigo e Redondela. Aí, seguindo a Estrela Polar e por veredas, bosques, pontes e estradas romanas, a chegada a Santiago de Compostela e um reencontro marcado comigo mesma. As pernas a pesarem, todo o corpo um queixume, mas o coração a palpitar, os olhos a brilhar de luz e lágrimas e um fim de chorar a sorrir pelo fim, mas também, por um novo recomeço. A pessoa que ali chega não é certamente a mesma que sonhou um dia fazer o Caminho de Santiago. E assim foi.

Dez dias, dez etapas, dez desafios, dez conquistas, dez dias de ouro para rechearem este tesouro, que é a Vida.

(...)

6 de janeiro de 2020

Dia 1 - De Casa a Caminha

Aqui vou eu… carregada com uma mochila imensa e com um peito cheio de sonhos e de uma vontade imensa de ser feliz e de me respirar fundo. Com a procura de, no fim, me encontrar renascida, retemperada de esperança, corajosa e grata pela Vida.

Estação Lisboa-Oriente, 9:40, comboio 721, carruagem 22, lugar 101, dia de Reis, 6 de janeiro de 2020, um ano do futuro, que na verdade me leva primitiva, despojada de quase tudo para junto da Natureza, para fazer o meu Caminho até Santiago de Compostela.

Neste comboio que me leva ao local que escolhi para dar os primeiros passos, choro em silêncio, como que a verter a angústia que deixarei nesta carruagem e que, por certo, não quererei levar comigo. Este ritmo, este correr de paisagens, provam-me a infinitude do mundo, a beleza que se encerra nele, e que, por mais apego que tenhamos ao nosso lar, aos nossos, é no viajar, no explorar, no ver tudo com os nossos próprios olhos e sentir, sentir muito, que nos enriquecemos e somos tanto, no meio de algo tão maior que nós.

Chegada à estação Porto-Campanhã (por momentos, transportada para a memória do Monopólio da minha infância) é hora de transbordo e de encontrar em poucos minutos o meu próximo comboio dos sonhos.

A mochila pesa, mas eu já me sinto mais leve. E aqui vou eu à procura de Caminha e do meu Caminho, mulher e homem das minhas histórias, embrulhada num manto de motivação, coragem e sonhos.

Tenho sede, de água e de passos, começando a ficar inquieta por estar sentada, sem me mexer há horas. Tenho em mim a vontade e o alento de ser tanto, de me embebedar e lambuzar de Mundo.

Da estação de Caminha ao Albergue de Peregrinos são minutos, sinto um nervoso miudinho, encontro a minha primeira vieira e seta a indicarem-me a minha guarida. É agora. É oficial!

O Albergue está vazio. Por esta altura do ano, parece que há poucos destemidos ou loucos como eu. Largo a mochila e vou descobrir Caminha. Aqui acabei por me deslumbrar pelo Jardim à beira-rio e pelo centro histórico.

No jardim, na Avenida de Camões (e quem melhor para me inspirar que ele), esparramei-me na relva a olhar o céu e o gigante pinheiro nórdico. E ao encontro do centro, pela Rua da Corredoura, dou por mim na bonita Praça Conselheiro Silva Torres, com a sua fonte, os seus belos edifícios, a imponente Torre do Relógio e a sua Igreja da Misericórdia. No Café Central, sento-me na esplanada para vislumbrar tudo isto e matar a fome. Só eu estou só, mas mirando os rostos, escutando as vozes, sou a mais encantada naquele momento.

Regresso ao Albergue passando pela Igreja Matriz de Caminha e pelo Conjunto Fortificado de Caminha e aqui, mais uma vez, fico extasiada, observando cada pormenor das pedras, da vista imensa para o rio Minho, ali onde este recebe o rio Coura, para juntos desaguarem no Oceano Atlântico. Anoiteceu, entretanto. Estou gelada e reforço a indumentária para dali a não muito tempo regressar ao encanto noturno da beira-rio e procurar um lugar para beber um chá preto bem quente. Estava ótimo!

Sentada num dos tantos bancos de jardim, relembro o poema Solidão, de Mia Couto. Tão saboroso como o chá quente de há pouco.

A camarata é só para mim… um aglomerado de beliches metálicos… impessoal, silenciosa, vazia, um pouco estranha, confesso. E o sono que tarda. Escrevo, penso, escrevo, penso, escrevo, sonho acordada à procura do sono profundo. Ali, na liberdade dos meus sonhos e das horas vazias, viajo e delicio-me ao encontro de fantasias e delírios da minha alma de mulher poeta e a minha alma transborda de medo risonho.

Ainda agora começou a viagem e aqui cheguei, a Caminha, o meu ponto de partida, e já me sinto mais leve e livre, ainda que perdida. Serei sempre assim só. Completa no meu ser, de mãos dadas com a minha coragem, mas este Caminho escolhi-o solitário. E nesta paz inquietante renovo a paixão pela Vida, este sentimento que quero perdurar em mim.

O início do Caminho_Caminha.jpg

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