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Palavras de Areia

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã.

Palavras de Areia

Partilha de sentires, emoções, aferições, estados de alma e coisas banais. Pequenas histórias de ontem, de hoje e que se sonham para o amanhã.

18.11.19

Pela mão da minha Mãe

Viagem no tempo à Aldeia


Maresia

Hoje, a minha mãe levou-me pela mão a passear na sua aldeia natal da Trindade, em Beja. Corriam os finais dos anos 50...por aí...
Percorremos as ruas, espreitámos postigos e relembrámos rostos da sua infância.
Na Travessa dos Mestres, visitámos a Avó Helena, que estava a fazer alguidares de massa e a fritar filhoses, já o Avô Helena bracejava de forma ágil no seu ofício e dizia à minha mãe, que de tanto o ver fazer, qualquer dia também ela faria sapatos. Na oficina da frente, cumprimentámos o tio António Januário, dissemos olá à vizinha Maria Inácia e ainda caminhámos junto à cerca para ir espreitar a barbearia do Tó Tiago. Seguimos em frente, e lá ao fundo, à esquerda, espreitámos as eiras e fomos até lá abaixo aos barrancos com as suas amigas.
No largo da Igreja, fomos ao tio Vicente. Vimos o casão da água, entrámos mais adiante, descemos as escadinhas à esquerda, primeiro para telefonar e ver onde era o pequeno escritório e o sítio dos correios e voltámos a descer mais uns degraus para ir à Mercearia comprar tabletes de chocolate para a minha avó Rosa, no Natal, colocar nos sapatos dos filhos, junto ao chupão. Saímos pela porta da frente, da Rua do Calvário. À nossa esquerda, conseguíamos ver o movimento da Fábrica de Moagem e as mulheres, as necessitadas de linhas e fazendas, na conversa à porta da Bia Madeira. 
Fomos ao lavadouro público com as tias lavar a roupa, demos um salto até ao poço da Vinha. As mantas e os cobertores fomos com a avó lavar à Ribeira e aí, aproveitámos e apanhámos
junça, canas e faias com a Maria Augusta e a Maria Lucília para os mastros.
De regresso à Aldeia, pássamos pela Chaminé e vieram a correr até ao portão dois cães enormes. Fugimos ladeira acima!
Fomos direitas à Adega e na Rua Mariano dos Reis passámos pela vizinha Constança, que estava à sua porta, chamámos pela vizinha Góis e parámos no tio Torcato para comprar tremoços a um tostão.
Entrámos na Adega. Havia homens nas mesas, de um lado e de outro. Um enorme quadro do Benfica. Ao fundo, à direita, estavam dezenas de peças de caça penduradas. Atrás, enormes talhas de barro, em cima de uma delas, a televisão. Mais à esquerda, o balcão e o meu avô Jacinto, a enxaguar copos. Lá atrás na cozinha, a avó Rosa, a fritar perdizes. Ao fundo, duas casas, são os quartos da família. Cheira a vinho, a fritos e as vozes roucas de homens entoam pelo espaço.
Saímos para a rua. Do nosso lado esquerdo, paredes meias com a Adega, o quintal da Sociedade. Estavam a colocar um pano enorme para projectar o filme Joselito. Já se ouvia música a tocar na outra rua e mais logo, cada um com a sua cadeira debaixo do braço, estará a postos para a sessão mágica.
Fomos ao fornos no fundo da rua, primeiro encontrámos a tia Maria do Forno e mais à frente, o forno da mãe da Lita (da qual nos falha o nome). Mais tarde, fomos ao forno do José Manuel Arsénio, espreitar a tia Chica Paulino, mas esse era do outro lado da Aldeia, ao fundo da Rua do Calvário  (hoje, Rua 8 de março). E nessa altura, aproveitámos para ir à Escola, ver a Professora D. Augustinha e a Professora Isabel. Estivemos no canteiro a arrancar rapazinhos.
Entretanto, jogámos ao Pisa e à Avioneta, ao Jangros e ao Eixo.
E como no dia seguinte era dia de escola, apanhámos boleia para Beja com o tio Adelino, que deixou a Mariazinha e a Teresinha no Colégio e a nós no tio Zé Romão. A tia Maria Luísa já nos esperava.
E estes foram alguns dos passos desta viagem no tempo que tive a honra de fazer com a jovem Rosa da Adega, aquela que hoje, sortudamente, chamo de Mãe.

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